Secretaria da Educação do Estado de São Paulo
Cursista: Roxana Genzini de Carvalho
Proposta de Sequência Didática com os textos:
O PRIMEIRO BEIJO de Clarice Lispector
MEU
PRIMEIRO BEIJO de Antônio Barreto
Ler para o
aluno é uma experiência muito interessante. Quando o aluno não tem o texto nas
mãos , obrigatoriamente fica atento,
mobilizando sua audição. Muitas vezes, esta atenção é mais produtiva que a
leitura silenciosa, com o texto em mãos, pois alguns detalhes são facilmente
captados. É só perguntar-lhes o que
chamou a atenção e eles vão se colocando, surpreendentemente, com algumas
minúcias ali presentes. Além disso, a entonação de quem lê, acaba interferindo
nessa captação, dando o tom que se quer para o observado. Ao escolhermos um
texto para ser lido, temos de pensar no prazer que a leitura possa provocar no
leitor, já que uma das funções da Arte é essa, segundo Aristóteles.
Vejamos,
então, temos um texto delicado, profundo, tocando na temática do primeiro
beijo, assunto que, sem dúvida, interessa aos jovens que, ainda vitimados por
tabus nunca derrubados, dificilmente compartilham tal experiência com os mais
velhos... A personagem, durante um trajeto de ônibus, tem sede, essa sede que
parece ser de tudo. Uma espécie de sede juvenil, que dá na gente e não se
consegue explicar. E por que não dizê-lo, antes da leitura ao aluno, fazendo um
tipo de “marketing” do que será lido?
“De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente
ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo
pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu
interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.” Fragmento de O primeiro Beijo de Clarice Lispector .
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.” Fragmento de O primeiro Beijo de Clarice Lispector .
Pode-se dar
uma pausa na leitura e conversar com a classe sobre as metáforas utilizadas
pela autora, depois da discussão voltar à leitura, enfatizando o uso das
metáforas, da linguagem que, muitas vezes, oculta intenções outras.
“Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado:
mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da
vida... Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...
Ele se tornara homem.” Fragmento de O primeiro Beijo de Clarice Lispector . (In "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998)
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...
Ele se tornara homem.” Fragmento de O primeiro Beijo de Clarice Lispector . (In "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998)
Tão importante
quanto a escolha do texto, deve ser o ensinar a ler, ou melhor, ir indicando a riqueza que as
palavras têm e o quanto elas nos permitem, quando temos algum domínio sobre
elas. Trabalho que deve ser feito por todos os professores em suas disciplinas.
Depois dessa
leitura, partimos para a leitura do texto de A. Barreto e fazemos do mesmo
modo, relevando a intertextualidade, a coloquialidade.
É dificil acreditar, mas meu primeiro
beijo foi num ônibus, na volta da escola. E sabem com quem? Com o Cultura
Inútil! Pode? Até que foi legal. Nem eu nem ele sabíamos exatamente o que era
"o beijo". Só de filme. Estávamos virgens nesse assunto, e morrendo
de medo. Mas aprendemos. E foi assim... (BARRETO, Antonio. Meu primeiro beijo. Balada do primeiro amor. São Paulo:
FTD, 1977.)
Interessante também é nessa nova
leitura, retomar trechos e discutir a utilização da linguagem metafórica,
decodificando-a.
Aí o bactéria falante aproximou o
rosto do meu e, tremendo, tirou seus óculos, tirou os meus, e ficamos nos
olhando, de pertinho. O bastante para que eu descobrisse que, sem os óculos,
seus olhos eram bonitos e expressivos, azuis e brilhantes. E achei gostoso
aquele calorzinho que envolvia o corpo da gente. Ele beijou a pontinha do meu
nariz, fechei os olhos e senti sua respiração ofegante. Seus lábios tocaram os
meus. Primeiro de leve, depois com mais força, e então nos abraçamos de bocas
coladas, por alguns segundos.E de reperente o ônibus já havia chegado no ponto
final e já tínhamos transposto , juntos, o abismo do primeiro beijo.Desci,
cheguei em casa, nos beijamos de novo no portão do prédio, e aí ficamos
apaixonados por vária semanas. Até que o mundo rolou, as luas vieram e
voltaram, o tempo se esqueceu do tempo, as contas de telefone aumentaram,
depois diminuíram...e foi ficando nisso. Normal. Que nem meu primeiro beijo.
Mas foi inesquecível! (BARRETO
Meu primeiro beijo,1977)
Além disso, fazer o aluno pensar
nas diferenças de comportamento entre as personagens, no texto de Clarice
Lispector e no texto de Antônio Barreto, o que os faria relacionar os
comportamentos ao tempo da ação narrativa, elemento importante desta tipologia
e, a partir daí, falar sobre o gênero relato, em assuntos semelhantes, mas com
linguagem diversa, porque é desenvolvido em situação temporal diferenciada, mas
em situação espacial quase igual.
Outro fator importante é o estudo
das personagens: no texto de Barreto elas são jovens, têm apelidos pertinentes
ao que vivem, são estudantes e, apesar de considerarem o “primeiro beijo” como
a transposição de um “abismo”, relatam que aos poucos essa “difícil
transposição” vai se diluindo com o tempo, um tempo de comunicação rápida e,
coincidentemente, de sentimentos que caminham com a mesma suposta rapidez,
demonstrada pelos telefonemas que são intensos e vão diminuindo.
Já no texto de Lispector, a
estátua é personagem fundamental na formação do “homem”, que passa pela
experiência da maturidade, após ter vivenciado um momento clímax, quase um
divisor de águas, entre a “inocência” e a “vida adulta”, proporcionada pela
experiência do beijo.
Toda essa discussão pode ter um
tom de informalidade, pode-se ir lançando hipóteses, perguntas, conduzindo o
aluno à reflexão sobre o tema e sobre a construção dos textos, a sala pode
estar disposta em círculo e pode–se usar o quadro para registro dessas
“descobertas”, tornando a aula mais envolvente.
A proposta não só visa à leitura
pela leitura, mas a leitura que faz pensar.
“Mas ser letrado e ler na vida e na cidadania
é muito mais que isso: é escapar da literalidade dos textos e interpretá-los,
colocando-os em relação com outros textos e discursos, de maneira situada na
realidade social; é discutir com os textos, replicando e avaliando posições e
ideologias que constituem seus sentidos; é, enfim, trazer o texto para a vida e
colocá-lo em relação com ela. Mais que isso, as práticas de leitura na vida são
muito variadas e dependentes de contexto, cada um deles exigindo certas capacidades leitoras e não outras.”(ROJO, 2004)
Depois desse trabalho,
outros aspecto podem ser trabalhados, como a intertextualidade com filmes que
trazem a mesma temática e que, portanto, dão origem a outros gêneros textuais.
Até concluir com a produção de texto do próprio aluno, em que ele relatará sua
experiência, podendo, inclusive, usar o
que foi estudado, para intertextualizar.
BARRETO, Antonio. Meu primeiro beijo. Balada do primeiro amor. São Paulo: FTD, 1977. p. 134-6.
LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina (1971). Rio de Janeiro, Rocco, 1998.
ROJO, Roxane. Letramento e capacidades de leitura para a
cidadania. São Paulo: SEE: CENP, 2004.
Texto apresentado em Congresso realizado em maio de 2004.
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