terça-feira, 25 de junho de 2013

Leituras


        Quem de nós não é leitor permanente? A leitura é um passeio do olhar por onde nos detemos ou temos interesse.Observar alguém que passa por nós e nos provoca algum sentimento deve ser também considerada uma leitura, nem sempre certa, mas, sem dúvida uma leitura. Pessoas dizem que a "primeira impressaõ é a que fica", ou as "aparências enganam". E o que é isso senão uma leitura? Paulo Freire já afirmara, em outros tempos, que a leitura do mundo precede a da palavra. Por que, então, não rediscutimos o conceito de ler?
          Primeiramente, voltemos à etimologia: ler significa colher, colher para nutrir. As leituras alimentam, dão a sensação de saciedade. Podemos usar de todos os nossos sentidos para praticar essa leitura de mundo: o tato, o olfato, o paladar, o olhar, qualquer um que usemos nos fará carregar as impressões e nos fará formar conceitos das coisas.
                                                                                                                           Roxana

terça-feira, 18 de junho de 2013

Sequência com o texto de Clarice Lispector



Sequência Didática (com acréscimo do texto de Clarice Lispector)
Primeiro Beijo
1)      Ler para o aluno o texto Primeiro Beijo de Clarice Lispector.
a)      Levantar hipóteses sobre como é a personagem central e que outra personagem passa a ter papel importante para a modificação da personagem central e por quê.
b)      Discutir sobre o espaço da ação, como podemos considerá-lo mais que um mero trajeto de ônibus. (fazê-los chegar ao fato de que o percurso feito pelo ônibus pode ser algo mais , como a transição da “inocência” para a “vida adulta”) 
1 b) relacionar os aspectos descritivos do espaço: a estrada, a paisagem;
transcrever as sensações da personagem;
2 b) fazer com o aluno um relato sobre as transformações ocorridas na adolescência, tanto físicas quanto psicológicas.
c)       Explicar-lhes o que é metáfora, utilizando-se de elementos do texto, por exemplo:
“O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos...
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
d)      Pedir aos alunos -que queiram falar- que contem suas experiências com o primeiro beijo.
Esse momento tem mais conversa que escrita, treinando mais a oralidade.
 O importante, além de conduzir interpretação do texto, elencar os elementos que compõem o gênero relato, resgatando a tipologia narrativa, tão conhecida deles.
Leitura do texto de Barreto e falar sobre a intertextualidade. Partir depois para os outros procedimentos propostos, como a relação entre o texto e o filme “Nunca fui beijada” e assim por diante, seguindo a sequência apresentada anteriormente.

domingo, 16 de junho de 2013

Proposta de atividade com dois textos




Secretaria da Educação do Estado de São Paulo

Cursista: Roxana Genzini de Carvalho

Proposta de Sequência Didática com os textos:

O PRIMEIRO BEIJO de Clarice Lispector

            MEU PRIMEIRO BEIJO de Antônio Barreto
Ler para o aluno é uma experiência muito interessante. Quando o aluno não tem o texto nas mãos ,  obrigatoriamente fica atento, mobilizando sua audição. Muitas vezes, esta atenção é mais produtiva que a leitura silenciosa, com o texto em mãos, pois alguns detalhes são facilmente captados.  É só perguntar-lhes o que chamou a atenção e eles vão se colocando, surpreendentemente, com algumas minúcias ali presentes. Além disso, a entonação de quem lê, acaba interferindo nessa captação, dando o tom que se quer para o observado. Ao escolhermos um texto para ser lido, temos de pensar no prazer que a leitura possa provocar no leitor, já que uma das funções da Arte é essa, segundo Aristóteles.



Vejamos, então, temos um texto delicado, profundo, tocando na temática do primeiro beijo, assunto que, sem dúvida, interessa aos jovens que, ainda vitimados por tabus nunca derrubados, dificilmente compartilham tal experiência com os mais velhos... A personagem, durante um trajeto de ônibus, tem sede, essa sede que parece ser de tudo. Uma espécie de sede juvenil, que dá na gente e não se consegue explicar. E por que não dizê-lo, antes da leitura ao aluno, fazendo um tipo de “marketing” do que será lido?
“De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.”
Fragmento de O primeiro Beijo de Clarice Lispector .
Pode-se dar uma pausa na leitura e conversar com a classe sobre as metáforas utilizadas pela autora, depois da discussão voltar à leitura, enfatizando o uso das metáforas, da linguagem que, muitas vezes, oculta intenções outras.
“Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...
Ele se tornara homem.”
Fragmento de O primeiro Beijo de Clarice Lispector . (In "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998)
Tão importante quanto a escolha do texto, deve ser o ensinar a ler, ou melhor, ir indicando a riqueza que as palavras têm e o quanto elas nos permitem, quando temos algum domínio sobre elas. Trabalho que deve ser feito por todos os professores em suas disciplinas.

Depois dessa leitura, partimos para a leitura do texto de A. Barreto e fazemos do mesmo modo, relevando a intertextualidade, a coloquialidade.
É dificil acreditar, mas meu primeiro beijo foi num ônibus, na volta da escola. E sabem com quem? Com o Cultura Inútil! Pode? Até que foi legal. Nem eu nem ele sabíamos exatamente o que era "o beijo". Só de filme. Estávamos virgens nesse assunto, e morrendo de medo. Mas aprendemos. E foi assim... (BARRETO, Antonio. Meu primeiro beijo. Balada do primeiro amor. São Paulo: FTD, 1977.)
Interessante também é nessa nova leitura, retomar trechos e discutir a utilização da linguagem metafórica, decodificando-a.
Aí o bactéria falante aproximou o rosto do meu e, tremendo, tirou seus óculos, tirou os meus, e ficamos nos olhando, de pertinho. O bastante para que eu descobrisse que, sem os óculos, seus olhos eram bonitos e expressivos, azuis e brilhantes. E achei gostoso aquele calorzinho que envolvia o corpo da gente. Ele beijou a pontinha do meu nariz, fechei os olhos e senti sua respiração ofegante. Seus lábios tocaram os meus. Primeiro de leve, depois com mais força, e então nos abraçamos de bocas coladas, por alguns segundos.E de reperente o ônibus já havia chegado no ponto final e já tínhamos transposto , juntos, o abismo do primeiro beijo.Desci, cheguei em casa, nos beijamos de novo no portão do prédio, e aí ficamos apaixonados por vária semanas. Até que o mundo rolou, as luas vieram e voltaram, o tempo se esqueceu do tempo, as contas de telefone aumentaram, depois diminuíram...e foi ficando nisso. Normal. Que nem meu primeiro beijo. Mas foi inesquecível! (BARRETO Meu primeiro beijo,1977)
Além disso, fazer o aluno pensar nas diferenças de comportamento entre as personagens, no texto de Clarice Lispector e no texto de Antônio Barreto, o que os faria relacionar os comportamentos ao tempo da ação narrativa, elemento importante desta tipologia e, a partir daí, falar sobre o gênero relato, em assuntos semelhantes, mas com linguagem diversa, porque é desenvolvido em situação temporal diferenciada, mas em situação espacial quase igual.

Outro fator importante é o estudo das personagens: no texto de Barreto elas são jovens, têm apelidos pertinentes ao que vivem, são estudantes e, apesar de considerarem o “primeiro beijo” como a transposição de um “abismo”, relatam que aos poucos essa “difícil transposição” vai se diluindo com o tempo, um tempo de comunicação rápida e, coincidentemente, de sentimentos que caminham com a mesma suposta rapidez, demonstrada pelos telefonemas que são intensos e vão diminuindo.

Já no texto de Lispector, a estátua é personagem fundamental na formação do “homem”, que passa pela experiência da maturidade, após ter vivenciado um momento clímax, quase um divisor de águas, entre a “inocência” e a “vida adulta”, proporcionada pela experiência do beijo.

Toda essa discussão pode ter um tom de informalidade, pode-se ir lançando hipóteses, perguntas, conduzindo o aluno à reflexão sobre o tema e sobre a construção dos textos, a sala pode estar disposta em círculo e pode–se usar o quadro para registro dessas “descobertas”, tornando a aula mais envolvente.

A proposta não só visa à leitura pela leitura, mas a leitura que faz pensar.
“Mas ser letrado e ler na vida e na cidadania é muito mais que isso: é escapar da literalidade dos textos e interpretá-los, colocando-os em relação com outros textos e discursos, de maneira situada na realidade social; é discutir com os textos, replicando e avaliando posições e ideologias que constituem seus sentidos; é, enfim, trazer o texto para a vida e colocá-lo em relação com ela. Mais que isso, as práticas de leitura na vida são muito variadas e dependentes de contexto, cada um deles exigindo certas capacidades leitoras e não outras.”(ROJO, 2004)
Depois desse trabalho, outros aspecto podem ser trabalhados, como a intertextualidade com filmes que trazem a mesma temática e que, portanto, dão origem a outros gêneros textuais. Até concluir com a produção de texto do próprio aluno, em que ele relatará sua experiência, podendo, inclusive, usar  o que foi estudado, para intertextualizar.

Referências Bibliográficas
BARRETO, Antonio. Meu primeiro beijo. Balada do primeiro amor. São Paulo: FTD, 1977. p. 134-6.
LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina (1971). Rio de Janeiro, Rocco, 1998.

ROJO, Roxane. Letramento e capacidades de leitura para a cidadania. São Paulo: SEE: CENP,     2004. Texto apresentado em Congresso realizado em maio de 2004. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

         Enquanto lemos os grandes nomes da Educação no mundo, reverenciando-os, não posso deixar de declarar: para mim, o maior deles é, sem dúvida, Paulo Freire!
     "Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho.
    A data é um convite para que todos, pais, alunos, sociedade, repensemos nossos papéis e nossas atitudes, pois com elas demonstramos o compromisso com a educação que queremos. Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem “águias” e não apenas “galinhas”. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda."       (fragmento escrito para o dia do professor)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Motivos para ler

    Meus pais eram leitores ávidos, desde jovens. Certa vez, meu pai, ainda pequeno, ficara trancado na biblioteca de uma igreja, porque não se dera conta de que fechara, entretido que estava num livro. Ele contava isso com muita alegria, mas logo completava com a sequência desastrosa das broncas de minha avó, que demorou a encontrá-lo e, portanto, castigou-o posteriormente... Coisas de criança, contadas por um homem, já pai.
    Bem, o livro era Cirano de Bergerac, obra teatral escrita por Edmond Rostand. A personagem-título tinha a autoestima comprometida pelo nariz enorme, compondo um rosto esquisito, mas, por outro lado era exímio espadachim, tinha retórica envolvente, fazia poemas com facilidade extraordinária, quando lhe davam qualquer mote, enfim tinha uma inteligência singular...
    Nesse universo de cavalaria e penachos, ele reserva um amor intranquilo, por uma prima, Roxana, que, donzela da corte, não tinha ainda a malícia de perceber-lhe. O tempo passa e surge um novo cavaleiro, fisicamente atraente, mas sem conteúdo algum. Embora Cirano tivesse restrições ao novo cavaleiro, a prima não, e confessou-lhe o interesse. Assim, Cirano oculta-se por trás das palavras sedutoras que dominava tão bem e conquista a amada para o outro, Cristiano. O desencontro amoroso, o platonismo avassalador, todas as palavras ditas como se fosse o outro, quando era ele quem queria dizê-las, fazem da peça uma das obras mais intensas que já li. E por que intensa? Não só pela beleza, mas pela motivação de ler uma obra que tinha o meu nome, em que meu pai se inspirara, naquela noite, na biblioteca da igreja, quando ainda era menino...
    Daí, foi tudo muito rápido... Poesia, prosa, ensaios, tudo, tudo me apetecia e eu gostava de decorar ( de cór, do latim, do coração) para dizer às pessoas o quanto, num universo tão imenso de palavras, alguém conseguia colocá-las ali, numa comunhão quase sagrada, perpetuando ideias, sentimentos... 
     Ler é dispor de mais de um sentido, dentre os cinco que já temos, é uma forma de estar no mundo integralmente! 
       É isso!